Itaú Cultural: Série coletivos | Bosque coletivo

Itaú Cultural: Série coletivos | Bosque coletivo

(Foto: Divulgação)

Conta um pouco pra gente a história do Bosque Coletivo, como o grupo surgiu?

O Bosque Coletivo surgiu da inquietação de estudantes de diversos cursos da Univasf (Universidade Federal do Vale do São Francisco) em transformar o ambiente acadêmico num espaço de trocas simbólicas e de atividades culturais. Tendo em vista a frieza e a pouca movimentação que o campus de Juazeiro possuía. Certamente, por questões relacionadas ao pouco tempo de existência da Universidade. Tudo começou em baixo de um pé de manga por trás da caixa d’água, a universidade foi instalada em uma antiga fábrica de produção de extrato de tomate, aquele ambiente criou uma ambiência perfeita para realização de eventos. O sentimento coletivo, toda a produção era realizada de forma colaborativa- da concepção criativa, a capitação de recursos, até mesmo a poda dos galhos da árvores-, gerado a partir das primeiras intervenções impôs ao Bosque a necessidade de transpor os muros da universidade e ocupar outros espaços da cidade.

Desde o primeiro evento, realizado, as produções do Bosque Coletivo busca integrar diversos tipos de linguagens como: música, fotografia, artes plásticas, literatura… Com um pouco mais de 02 (dois) anos realizamos 04 (quatro) Festas no Bosque, 02 (duas) edições do Sarau do Bosque, os lançamentos do livro “Bicho” e da Exposição Fotográfica “#QueriaEstarMorta”, do poeta juazeirense Jonatha Alencar e da fotografa /Antropóloga petrolinense Tainã Aynoã, respectivamente, além da primeira edição do Baile do Bosque.

Além destes, o Bosque Coletivo coproduziu outros momentos, por exemplo: Silas França e Trio Elétrico Som e Fantasia, no carnaval antecipado de Juazeiro, onde foi parceiro da Rádio Web “Ride FM” e o evento de Literatura “Plataforma das Artes”, realizado com a mais uma vez em parceira Ride FM, além da Livraria SBS e Editora CLAE (Circulo Literário Analítico Experimental). A viagem do Bosque é criar espaços que deêm vazão a produção local, gerar condições de trocas entre artistas de outros lugares do país. A viagem da gente não é ser dono é fazer parte. Com o pé no sertão, nas barrancas do São Francisco e com a cabeça no mundo.

Quais linguagens artísticas o grupo trabalha?

Um dia minha vó perguntou: Vocês mexem com tudo é? Respondi de bate e pronto: Quase tudo vó. A ideia do bosque é essa! Transpor limites. Ultrapassar muros. Re- significar espaços. Desse modo a gente vem mexendo com tudo que aparece. Produzindo coisas que transitam entre as artes plásticas (como mostrar), passando pela literatura (lançamento de livros e alguns saraus), até chegar na música ( com a realização de algumas festas). Mas a música não é o fim. Na verdade, verdadeira, o Bosque não tem um fim… Qualquer hora dessas a gente mete dança no meio. Só pra ver no que vai dá.

Como funciona a gestão do grupo?

Acho que a ideia de funcionar parece meio estranha para o Bosque Coletivo, acho que a noção de funcionamento perpassa a ideia de função. E uma das coisas que tentamos superar é a noção de funcionalidade. As coisas vem acontecendo organicamente. Pensamos mais na noção de pulsão como ideia norteadora de nossas ações. Sabe?!

Cada um vai mexendo no que se sente mais a vontade. Mais atraído. Mais envolvido. É uma pulsão de vida. É lógico que pra dar certo tem um pouco de chatice. De burocracia. Aí entra em ação uns sujeitos, ou melhor, “atores”, que tem pulsão/ tesão pela organização de coisas. Cada um dá seu gozo por uma parte. Hoje estamos com 5 correrias envolvido em tudo. Somos: Geraldo José, Júnior Barbosa, Leonardo, Pezão, e Vinnicius Morais. Cada um assume um pedaço do corre.

Nossa gestão da produção é completamente horizontal e as deliberações coletivas. Sempre buscamos alcançar consensos. O que vem acontecendo. Quando a questão é polêmica, damos mais tempo para maturação das ideias. E daí o novo surge ou superamos as barreiras que estavam impedindo o avanço no debate. Além das correrias mais permanentes, sempre tem uma galera que cola na corda na hora do vamo vê!. Talvez por isso dê certo. Construímos um universo colaborativo para nossas produções. A correria pode até ser grande, mas o Bosque é Coletivo.

(Foto: Divulgação)

 

Já chegaram a ganhar algum edital? Se sim conte um pouco mais sobre esse projeto.

Pois é. Esse ano conseguimos captar um recurso no edital setorial do Fundo de Cultura do Estado da Bahia (FCBA), gestado pela Fundação de Cultura do Estado da Bahia (Funceb). Aprovamos no segmento de Territórios Culturais. Nossa ideia é fazer três saraus em cidades do sertão baiano. Fazer com que artistas de três cidades (Uauá, Curaça e Juazeiro) circulem entre as cidades. Nossa ideia é chegar nas praças e fazer um sarau que leve música, poesia, projeções. São cidades pequenas, exceto Juazeiro que possui mais de 200 mil habitantes.

Estamos ansiosos. Emplogados com ideia de pegar estrada, chega em outros lugares, ver nossas pessoas colando. Vamo que bora. 2017 vamos ultrapassar outro muro. Vamos andar pelo sertão. Acabamos de aprovar o projeto “Sarau do Bosque no Sertão do São Francisco” que será realizado no ano de 2017. Objetivando dinamizar a produção cultural das cidades de Juazeiro, Curaçá e Uauá, ocuparemos equipamentos públicos com intervenções artísticas em formatos de saraus poéticos, visando a divulgação das produções artísticas locais e colaborando com a democratização do acesso à cultura.

As políticas culturais atendem as demandas do Bosque e de artistas e grupos de sua região?

Se essa pergunta fosse feita a uns dois anos atrás. Lá no começo do coletivo. Perguntaríamos: qual política? Agora que estamos buscando nos empoderar desses paranauês. Lendo muito sobre gestão. Trocando figurinhas com os mais vividos. Buscando editais. Mas existe uma barreira muito grande. Um super muro. Estamos longe demais das capitais. Isso é algo que transforma nossa produção em uma luta.

Primeiro encarece muito a logística, convidar um oficineiro sai mais caro do que em outros lugares, uma banda é outra dinâmica de custos. Além da questão custos existem os preconceitos, as panelinhas, sei lá. Como explicar a concentração dos recursos em apenas dois territórios de identidades no Estado da Bahia ( na região metropolitana e no recôncavo baiano) ? Até temos algumas explicações. Vão dizer que lá estão as pessoas mais qualificadas. Que lá se concentra o público.

Do lado de Pernambuco, já que o coletivo atua em duas cidades, tendo membro de dois estados. Somos Peba’s. Como diriam Euri Mania ( p1 rappers): Somos Pernam-baianos. Transitamos entre Pernambuco-rio-Bahia. Em Pernambuco os recursos se concentram em Recife. Quando se trata de fundo de cultura na Bahia temos essa barreira. E quando se trata de mecenato, aí é que lascou tudo, nenhum departamento de marketing tá afim de colocar a grana da lei Rouanet ou do Faz Cultura, da isenção fiscal que diga, no sertão. Estamos longe demais das capitais. Infelizmente essa lógica ainda perdura. Mas vamos transpor esse muro. Primeiro vamos grafitar ele, deixar bem bonito. Depois pula-lo.

De que maneira o grupo se relaciona com a cidade? Vocês enxergam algum impacto na dinâmica da cidade a partir de suas ações?

O Coletivo carrega no seu DNA o gene juazeirense, contudo, estamos situados no Vale do São Francisco, fazemos divisa com Petrolina, cidade pernambucana, e somos vizinhos de dezenas de cidades, muitas banhadas pelo Rio São Francisco, conectando essas cidades umas nas outras de maneira orgânica, natural. O bosque surgiu debaixo de um pé de manga dentro de muros na Universidade. Sentimos a necessidade de ocupar aquele lugar verde, atrativo, gostoso, malemolente, que estava vazio, sem vida.

Depois quando estávamos conversando com os antigos de juazeiro, com os juazeirenses raiz, descobrimos que um local ( o arco da ponte presidente dutra que liga Juazeiro a Petrolina) que estava abandonado pelo poder público, mal iluminado, sujo, fétido por conta a urina, que tinha como usuário apenas dependentes químicos, era onde a boêmia e os poetas realizavam saraus. Como já tinham vontade de ocupar com arte outros espaços resolvemos realizar o Sarau ali. Algo aconteceu. Cores, luzes e muitos outros eventos se reproduziram ali. Nossa vontade é realizar todos os eventos nas ruas. Nas praças, no entanto, não temos ainda a capacidade financeira e de estrutura para tanto. Então, quando buscamos viabilizar artísticas de outras cidade acabamos fazendo em espaços público com preços populares. Mas as praças são os nossos ninhos. O Bosque Coletivo sente a necessidade de ocupar.

(Foto: Divulgação)

Fonte: Itaú Cultural

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