“Yamandú Costa é um Caravaggio do sete-cordas”

“Yamandú Costa é um Caravaggio do sete-cordas”

ARTHUR NESTROVSKI
ARTICULISTA DA FOLHA

Lá pela quarta música, a gente começa a achar tudo aquilo normal. Mas não é: só Yamandú toca esse instrumento, que ainda não tem nome. Visto de longe, parece um violão de sete cordas. Ouvido de perto, ele se transforma numa parte exótica do corpanzil do gaúcho, cuja música parece explodir de dentro para fora, pela barra das bombachas e pela rosácea do yamandulão.

Era o show de lançamento do CD (independente) “Yamandú Ao Vivo”. Quer dizer: era “Yamandú Ao Vivo” ao vivo, no auditório lotado do Sesc Vila Mariana. Junto com ele estavam o virtuosístico e expansivo baixista Thiago do Espírito Santo – filho do mestre Arismar, que deu uma canja- e o virtuosístico e discreto baterista Edu Ribeiro: ótima combinação, bem ao contrário do habitual (baixistas cômodos, bateristas incômodos).

Que Yamandú tenha atacado, de cara, um tema de Baden Powell (a “Valsa nº 1”), soou como homenagem ao precursor. No imenso céu do violão brasileiro, já se formou, a essa altura, uma constelação quadrangular: Garoto, Baden, Raphael Rabello e Yamandú. Garoto é o pai de todos. Raphael é Rafael para o Michelangelo de Baden. E Yamandú é a estrela exorbitante, um Caravaggio do sete-cordas, esbanjando confiança e extravagância.

Nos momentos de maior felicidade, a extravagância é avassaladora e consome qualquer ressalva com o fogo da música. Yamandú chega no limite do descuido, para não dizer do desprezo pela beleza clássica do som. Independentemente da amplificação (alta demais, metálica nos agudos, embolando o baixo e o violão -a miséria de sempre), o negócio dele é outro. E não só quando o que importa é o efeito do brutalismo mesmo.

Até na impressionista “Nuages”, de Django Reinhardt (1910-53), que ele teve a inspiração de ressuscitar, chega um momento em que algo sai de dentro da calma, outra música, sem paciência com a própria elegância.

Quando vira samba, então, ninguém segura. Chega a ser incongruente ver essa criatura de lenço maragato no pescoço suingando como Baden no Paraíso. “Essa é bagual!”, disse ele, antes de mudar de registro e lascar uma versão antológica do “Taquito Militar” (Mariano Moraes).

Quando as incongruências chegam na música é que a coisa, às vezes, complica. Dois exemplos: uma versão jazzística, quase à New Orleans, de “Sampa” (Caetano) e uma “Disparada” (Geraldo Vandré e Theo de Barros) tirada do fundo do baú e vestida de alegria. No primeiro caso, não se perdeu todo o universo de referências da canção? (Vanzolini, “Ronda”, tropicalistas paulistas.) No segundo, não se esqueceu o contexto? (Regime militar, rebelião, “na boiada já fui boi” etc.)

A sensação que se tem é que Yamandú simplesmente não está preocupado com isso. As letras nem entram em questão. Nem como lembrança: a força da música cobre tudo de espanto e encantamento.

Encantados e espantados, a gente nem se dá conta de que essa música, com todo o seu delírio maravilhoso, comove pouco, afinal. Mas é um espetáculo incrível: Yamandú, aos 23 anos, já se tornou, sem nenhum favor, um dos maiores violonistas do mundo. Que ele esteja por aí, dando sopa nos palcos brasileiros, é um privilégio; e imaginar o que vem pela frente anima qualquer um.

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