A importância do criativo empreendedor
30 de maio de 2016 1134 Visualizações

A importância do criativo empreendedor

“Uma empresa, uma organização ou até mesmo um profissional liberal precisa ser empreendedor, administrador e técnico para que sua atuação seja sustentável ao longo do tempo, ainda que sua vocação e seu perfil sejam de criativo.”

A afirmação é de Erick Krulikowski, professor convidado do MBA de Bens Culturais da Fundação Getúlio Vargas (FGV), coordenador pedagógico do Objetiva – Projeto de Capacitação de Empresários do Setor Audiovisual e sócio diretor da iSetor, empresa de gestão administrativa e financeira para empreendedores empresariais, culturais e sociais.

Graduado em Música pela Universidade de São Paulo (USP), Krulikowski tem mais de 15 anos de experiência em gestão executiva de projetos e negócios, com ênfase em finanças, planejamento estratégico, plano de negócios e desenvolvimento institucional. Em entrevista ao site Cultura e Mercado, ele explica por que é importante que os profissionais da área cultural entendam de finanças e fala sobre como buscar a sustentabilidade de projetos e negócios culturais.

Cultura e Mercado – Os profissionais da área cultural vêm sendo demandados, cada dia mais, no sentido de compreender seu trabalho também sob a ótica administrativa, financeira e contábil. Mas isso ainda é muito difícil para grande parte desses produtores, gestores e até mesmo artistas que precisam cuidar da sua própria carreira. Ser criativo e administrador é mesmo esse bicho de sete cabeças?

Erick Krulikowski – Realmente é bastante difícil encontrar essas duas características na mesma pessoa, até porque são vetores de trabalho de certa forma distintos. Há muito que a administração estuda o perfil do empreendedor ou do criativo, buscando maneiras de compreender sua atuação em uma organização. Michael Gerber, no livro “O mito do empreendedor”, consolida três perfis básicos em uma empresa ou instituição: o empreendedor (aquele sonhador, visionário, uma personalidade criativa), o administrador (o planejador, pragmático, treinado para ver problemas e organizar) e o técnico (aquele que adora fazer, feliz trabalhando nas tarefas e em seu modo de fazer – é o ‘mão na massa’). É lógico que não somos somente um ou outro perfil, mas a grande maioria de nós acaba se encaixando mais em um perfil do que em outro. O artista, por exemplo, adora investir sua energia na produção da arte; um músico adora estar estudando, ensaiando e tocando, e não quer se envolver em negociação financeira ou contadores, certo? Assim, ele assume um papel de técnico. E os principais problemas neste tipo de posicionamento se revelam desenvolvimento de uma visão de longo prazo e em lidar com as questões práticas do dia-a-dia. Uma empresa, uma organização ou até mesmo um profissional liberal precisa ser empreendedor, administrador e técnico para que sua atuação seja sustentável ao longo do tempo, ainda que sua vocação e seu perfil sejam de criativo.

Acredito ser complicado ser muito bom criativo e muito bom administrador, por serem de fato focos de trabalho distintos. E aí é que se torna importante estar cercado de uma equipe ou de parceiros complementares, que possam apoiar o criativo nas outras áreas, como um financeiro, um manager e outros. Mas de qualquer forma, o criativo não pode simplesmente ‘delegar’ completamente essas tarefas para outros, deve se preparar e ter conhecimentos básicos de gestão e finanças para saber o que pedir, quando pedir e entender se alguém está fazendo alguma coisa errada. Por que, no final das contas, a responsabilidade será sempre do empreendedor criativo, então é preciso assumir essa responsabilidade ao invés de negar esse fato.

CeM – O setor cultural ainda vive uma lógica muito baseada em projetos, editais e leis de incentivo. É possível conquistar a sustentabilidade da cultura com essa visão?

EK – Existem duas questões a serem abordadas aqui: primeiramente, o conceito de sustentabilidade, para muitos, significa não ter tantas dificuldades para captar recursos. Só que isso não existe. Até grupos e instituições consagradas têm que trabalhar muito para captar e vender, continuamente. Assim, a sustentabilidade não é uma situação estática, mas sim um processo contínuo que faz uma empresa ou organização se manter equilibrada, gerando valor sociocultural, ambiental e econômico.

O outro ponto diz respeito à lógica de financiamento atual: a maioria das produtoras e instituições culturais no Brasil vive mesmo de projetos, tanto captados pelas leis de incentivo quanto por meio de editais. Para isso, acabam lidando com uma diversidade grande de projetos, sendo que nem todos eles contribuem de fato para que a organização cumpra sua missão – são apenas formas da organização conseguir alavancar recursos para manter sua equipe. Esse círculo é perverso e, muitas vezes, pode contribuir para que as instituições se tornem auto-centradas, focadas em prestar contas para o governo para conseguir mais recursos e menos preocupadas no impacto junto ao seu público-alvo. Afinal, se quem paga a conta é o governo, e o governo não se preocupa com avaliações de resultado (basta entregar o produto ou realizar o filme), a avaliação sobre a qualidade artística ou o feedback do beneficiário final do projeto fica em segundo ou terceiro plano. Com isso, a relevância do produto cultural e artístico fica prejudicada. É por isso que defendo que as instituições devem investir, cada vez, no desenvolvimento de produtos e serviços para atuarem no mercado. Não se trata somente da criação de fontes de recursos para tornar a instituição mais sustentável, mas também de buscar formas de testar a relevância do que se está fazendo. Como se fossem pequenos testes que nos indicassem que estamos no caminho correto, criando fluxos e energias importantes para a sobrevivência das instituições. Além de um efeito na relação com a sociedade, a diversificação de fontes de financiamento é um item primordial para uma estratégia de sustentabilidade financeira de uma empresa ou organização. A concentração de recursos em um mesmo cliente/financiador ou em um mesmo projeto é arriscada, e o ideal é criar um composto que permita aproveitar oportunidades ou ter uma saída para o caso de um patrocinador interromper o investimento.

Continue lendo a entrevista clicando aqui.

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