Semana Nacional de Museus: de todos e para todos

Semana Nacional de Museus: de todos e para todos

Museus e paisagens culturais. Como fica a relação das pessoas com esses espaços? Será que quem passa por eles diariamente entra e os visita? 
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No centro de Brasília, o Museu Nacional Honestino Guimarães, projetado por Oscar Niemeyer, se destaca na Esplanada dos Ministérios. Por fora, pela cor branca e pelo formato oval. Por dentro, por receber obras de vanguarda. 
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Como se fossem parte deste cartão postal, duas mulheres circulam diariamente no local no período da manhã. Ao nos aproximar delas, descobrimos que Ozana Santos e Lenice Cotrim são responsáveis pela limpeza da área externa do museu. Mesmo passando todos os dias ao redor de um dos principais cartões postais de Brasília, elas acabam não tendo tempo nem oportunidade para entrar e conhecer o acervo e as exposições. 
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A convite do MinC Reportagem, revertemos este quadro. Depois de negociarmos com o museu e com a empresa de limpeza urbana para qual trabalham, abrimos um intervalo na manhã das duas para conversar sobre a relação delas com espaços culturais e visitar as exposições em cartaz no museu. 
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A reportagem foi motivada pela proximidade da Semana dos Museus, que será realizada de 16 a 22 de maio, quando museus de todo o Brasil desenvolvem uma programação especial em prol do dia 18 de maio, quando se comemora o Dia Internacional de Museus. A atividade é realizada pelo Instituto Brasileiro de Museus (Ibram), entidade vinculada ao Ministério da Cultura (MinC) responsável por pensar as políticas públicas na área de museus. Este ano, o tema da semana é Museus e Paisagens Culturais.
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Confira abaixo fotos dessa experiência:
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Há mais quatro meses, Ozana Maria Pereira dos Santos, de 47 anos, e Lenice de Jesus Cotrim, de 34 anos, passam diariamente em frente ao Museu Nacional, em pleno coração de Brasília. Entretanto, elas nunca conseguem entrar no local para desfrutar de suas instalações e exposições. Seja por estarem no local a serviço ou pelar falta de costume, tempo ou oportunidade, como vieram a confessar. Ozana e Lenice formam uma dupla de garis que atua na área que engloba da rodoviária do Plano Piloto até o Conjunto Cultural da República, incluindo o Museu Nacional Honestino Guimarães, a Biblioteca Nacional Leonel de Moura Brizola e a da Catedral de Brasília, na Esplanada dos Ministérios.

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Dia a dia, elas acompanham as movimentações que circundam os museus: jovens, crianças, ambulantes, manifestantes, caminhões que entram e saem, e algumas exposições que usam o espaço externo das paredes curvadas do museu para mostrar seus trabalhos.
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As duas começaram a trabalhar bem jovens e largaram os estudos cedo. Retomaram recentemente, mas ainda não concluíram o Ensino Médio. Elas mostraram em comum o gosto por estarem trabalhando naquela região. Caracterizadas com uniformes, compostos de calça e camisetas de mangas compridas, botas, luvas e bonés, elas manifestam, na própria aparência, a preocupação com limpeza e organização.
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Relação com cultura e acesso
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O contato com a música e teatro começou cedo para Ozana. É com carinho que ela recorda das brincadeiras e ensaios que fazia com um grupo de amigas. No início da década de 1980, graças a um programa de TV, ela e as amigas participaram de competições de dança e teatro em Brasília. “Foi um momento mais gostoso. O nosso grupo era de dança. Apresentávamos e passava na televisão. E a gente sempre ganhava. Eu ainda tenho contato com elas”, relembra.
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No entanto, pisar em um museu, segundo Ozana, foi apenas depois de adulta. “Na infância, não fui não. Fui depois de grande, com uns 26, 27 anos. Trabalhava aqui do lado do Plano (Piloto, região central de Brasília). Foi num domingo. Depois, levei os filhos, quando pequenos. Cada fim de semana estou num programa diferente”, narrou, com um sorriso nos lábios.
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Ozana, cada vez que visita uma exposição, um museu, diz sair com algum aprendizado, sabendo mais sobre lugares e pessoas do passado ou de realidades distantes e diferentes da dela.
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“Quando eu trago meus filhos, meus netos para um museu, é para dar a eles um conhecimento de muitas histórias e de muitos lugares. Por trás de cada fotografia, daquela peça, tem toda uma história”, explicou. “Eu sou muito curiosa. Gosto muito de aprender. Quanto mais você conhece, mais quer conhecer, quer se aprofundar na história”, acrescentou.
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Ao lado de Ozana, está Lenice, sua colega de trabalho. Casada e com dois filhos, ela se declara muito caseira e focada nas atividades da família. Conta que, desde pequena, nunca teve incentivo nem contato com as diferentes linguagens artísticas.
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“Eu nunca frequentei esses lugares assim (se referindo a museus). Eu não tive curiosidade, nem oportunidade. Moro longe, em Ceilândia (cerca de 30 km de Brasília). Dificulta um pouco para vir. Quando tenho tempo livre, fico com meus meninos”, conta.
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O máximo de proximidade que Lenice tem com produção artística é com filmes infantis, que assiste junto com os filhos, pela televisão de casa.
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Oportunidade
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Feito o convite para conhecer, com a equipe do MinC Reportagem, as duas exposições em cartaz no Museu Nacional naquela manhã, as duas, prontamente, aceitaram.
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Começamos pelo prédio anexo, com a delicada exposição Cerâmica do Japão – A Geração Emergente do Forno Tradicional Japonês, realizada com o apoio da embaixada japonesa.  Era um conjunto de cerca de 50 objetos, entre vasos, pratos e potes, que, a partir do tema “vasilhames”, apresentaram a criatividade e a originalidade de artistas daquele país asiático.
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Ozana e Lenice caminharam por entre as peças e observaram com atenção as informações sobre cada uma das obras, os detalhes, os materiais utilizados e as datas de fabricação.  Tiveram a companhia do guia do museu, que explicou o contexto em que as obras foram produzidas e algumas das suas peculiaridades.  “Se eu pudesse e meu dinheiro desse, eu levava estas peças todas para casa. Ia ficar lindo”, comentou Ozana.
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Ozana puxava por Lenice para tecer comentários sobre o que viam. E depois, na sequência, era Lenice que, pela primeira vez, de fato, visitava um museu e já guiava a amiga para se atentar às minúcias dos objetos ali expostos.
Antes de saírem do anexo em direção ao edifício principal do museu, em formato oval, elas pegaram o material impresso explicativo e foram olhando mais informações sobre a exposição japonesa enquanto caminhavam em direção à outra.
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Na parte inferior do museu, fomos recebidos por outro atencioso guia, que mostrou a exposição A Vitória de Todos, uma série de fotos da comunidade chilena La Victoria.
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Os retratos mostravam cidadãos comuns, moradores de um agrupamento humano, protagonistas de uma das primeiras invasões de sem-teto no Chile. Os personagens usavam suas casas para morar e também para trabalhar, transformando-as em comércio de produtos ou serviços como os de sapateiro, salão de beleza e mercadinho.
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