A economia artisticamente criativa

A economia artisticamente criativa

Entrevista feita por Mônica Herculano para o site Cultura e Mercado

Lançado em dezembro pelo Observatório Itaú Cultural e a Iluminuras, o livro “A Economia Artisticamente Criativa“, do professor da Universidade Sorbonne (Paris), Xavier Greffe, examina a dinâmica entre arte, cultura e economia buscando identificar o que há de novo nesse campo e como promover o seu desenvolvimento.

Greffe redesenha o surgimento da economia criativa e as relações com as artes e a cultura, ilustra as ligações entre cultura e criatividade do ponto de vista individual e comunitário; as especificidades das empresas artisticamente criativas, assim como as relações de bens econômicos, bens artísticos e produtos culturais, além das diversas articulações dos produtores criativos em relação à organização de territórios culturais ou as redes criativas.

Em entrevista exclusiva ao Cultura e Mercado, ele fala sobre alguns dos aspectos tratados no livro. Confira a seguir:

 

Cultura e Mercado – Na introdução do livro, o senhor diz que “a dimensão estética gerada pelas atividades artísticas é especialmente pertinente para os mercados em que a competição pelos custos dá lugar a uma competição pela qualidade”. Quais são esses mercados? Eles reconhecem o papel das artes no seu desenvolvimento?


Xavier Greffe – Durante muito tempo, considerou-se a competitividade das nações e de seus respectivos produtos como resultando dos diferenciais de custo do trabalho, o que explica em particular porque a China tornou-se a fábrica do mundo e promoveu assim a destruição de tantos empregos nos países onde as remunerações são relativamente mais altas. Embora este argumento diga respeito apenas ao custo do trabalho, já é em si bem considerável. Os países com salários altos consideram hoje que precisam encontrar outras fontes de vantagens relativas ou de competitividade, o que leva em geral ao aumento da qualidade dos produtos. A integração de referências e dimensões estéticas a esses produtos atribui-lhes uma especificidade importante e permite-lhes eliminar de algum modo a penalidade que para eles representam os salários mais altos.

 

CeM – Quais são as consequências – positivas e negativas – às artes desse papel no mercado? De maneira geral, quem atua no setor cultural tem conseguido identificar e fazer bom uso dessas responsabilidades (ou diminuir, no caso das negativas)?
XG – A relação entre as artes e o mercado sempre foi complexa, pois os bens e obras de arte não suportam com facilidade o tratamento que lhes pode dar o mercado. Por um lado, está claro, é o mercado que pode permitir que se reúnam os recursos necessários para cobrir os custos de produção e as legítimas remunerações dos artistas. De outro, porém, esses bens são “únicos” e “inéditos”, o que faz com que os consumidores não os conheçam bem e não estejam dispostos a pagar por eles uma quantia que permita aos artistas viverem do que fazem. Além disso, quando comparados com outros bens, os bens artísticos são mais intensivos em trabalho, o que faz com que não se beneficiem dos ganhos de produtividade e de economia de escala, o que significa um “desvio para cima” de seus custos, algo a que se dá o nome de “doença dos custos”. O risco é grande, assim, de que se tenha um preço de oferta (pedido pelos ofertantes do bem) mais elevado do que o preço que a demanda aceita pagar, o que leva inevitavelmente a desequilíbrios e, muitas vezes, ao fato de que os ofertantes se vejam obrigados a reduzir seus preços e arcar com os prejuízos. A prova mais manifesta desse desequilíbrio reside no fato de que as remunerações dos artistas são na média –ao longo de um tempo coberto por estudos comparáveis— inferiores àquelas de que se beneficiam outras pessoas que trabalham no mesmo sistema econômico.

As variantes desses tipos de desequilíbrio acompanham a natureza dos mercados artísticos. Há também exceções, como os superstars que, no campo do espetáculo ao vivo ou nas artes visuais, podem conseguir, com seu nome, quantias consideráveis. Mas as observações mostram que se tratam de casos excepcionais e que o recurso ao mercado traduz-se muitas vezes em dificuldades para a maioria dos artistas e produtores de bens artísticos. Alguns dirão que, se continuam em suas atividades, é apenas porque têm um interesse específico por aquilo que fazem e que isso compensa o viés financeiro de que são vítimas.

 

CeM – “Economia criativa” tornou-se termo da moda. Quais os principais problemas hoje no uso dessa expressão?
XG – Um primeiro grupo de dificuldades provém do próprio termo: todo novo bem que apareça no mercado é ipso facto criativo? Deve a criatividade residir sistematicamente no produto ou pode estar no processo de fabricação, algo que Schumpeter pôs em evidência? Se uma atividade se diz criativa significa que todos que nela trabalham são trabalhadores criativos? Enfim, qual é a origem da criatividade? Todas essas perguntas são importantes e constituem hoje tema de inúmeros debates sobre os quais é possível ler em meu livro.

Mas a questão mais delicada, por abranger todas as outras, reside no fato de que, ao falar de “economia criativa”, dá-se a entender que existe ao lado, ou à margem, uma “economia não criativa”. Essa ideia não se sustenta. Na verdade, é provável que em toda oficina, toda empresa, todo setor da economia, existam alguns elementos criativos e outros que o são menos, o que torna sua detecção e representação estatística mais difícil. Por exemplo, no caso da confecção têxtil, algumas empresas poderão fabricar produtos novos, resultantes de capacidades específicas de imaginação e exceção, enquanto outras se contentarão com a reprodução constante das mesmas coisas. Nisso reside a dificuldade, uma vez que não se pode dizer que o setor da confecção têxtil é a priori criativo ou não criativo. Do mesmo modo, a maioria dos estudos procura delimitar o peso da criatividade ou a parte relativa que ocupam num produto. Esse peso será alto em certos setores que dependem da novidade, como no teatro, e menos em outros setores que se caracterizam pela repetição, como os serviços de transporte, embora mesmo nesses seja possível identificar elementos de criatividade. Assim, costuma-se dizer que o setor do teatro é criativo em 95% (margem de erro) enquanto o setor do transporte é em 95% não criativo.

 

CeM – O que caracteriza uma empresa artisticamente criativa?
XG – Para abordar de modo mais preciso a pergunta anterior, pode-se dizer que uma empresa criativa é aquela que “descobre” um produto novo, um novo processo, um novo material, uma nova combinação entre esses três elementos. Alguns dirão mesmo que uma empresa pode encontrar um novo meio de financiar-se, um novo sistema logístico, mas em geral reserva-se o termo criatividade para o produto/processo em sentido amplo.

Os economistas, porém, insistirão no seguinte: não existe criatividade se não for aplicável de modo concreto; uma coisa é, assim, produzir novos conhecimentos; outra, possibilitar que sejam aplicados. Dito de outro modo, para eles a criatividade significa não apenas a produção de conhecimentos mas a inovação, isto é, a inserção desses novos conhecimentos no mundo econômico. Isso é importante porque significa que, ao assim fazer, assume-se um risco porque o conhecimento não fica “dormindo na gaveta” e se traduz em custos econômicos com os quais o propositor ou produtor terá de arcar sem saber se o mercado responderá de modo favorável. Assim, no pensamento econômico assimilou-se o empresário ao agente criativo por excelência: por certo, o cientista, o inventor é um ponto de partida, mas sem o empresário não haverá nunca economia criativa, seja ele uma pessoa isolada, um magnata, um capitalista, um grupo etc.

Leia a entrevista completa clicando aqui.

 

economia_artisticamente_400

Xavier Greffe
Tradução: Ana Goldberger

 

DADOS TÉCNICOS:
15,7x23cmcm | 192 páginas
ISBN: 978-85-7321-487-1

Situação:Lançamento
R$38,00

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