“Esse é o momento de reunir ideias para a Maringá que queremos construir”

“Esse é o momento de reunir ideias para a Maringá que queremos construir”

O empresário Wilson Tomio Yabiku recebeu a reportagem do Instituto Cultural Ingá no hall de entrada da Construtora Design, onde estão expostos desde o dia 16 desse mês as peças de cerâmica Raku produzidas pelos artistas do Atelier Lua 9. Durante a entrevista, o ex-presidente do Codem também falou sobre o papel da Cultura e do Turismo no desenvolvimento do Masterplan de Maringá.

 

Como surgiu a ideia de trazer artistas para expor aqui?

A nossa empresa está completando 40 anos de atividade este ano, a empresa que eu fundei quando estava no terceiro ano de faculdade ainda. Então pensando em como comemorar essas quatro décadas, conversando com vários colaboradores, surgiu essa ideia de fazer exposições para prestigiar o artista maringaense. Passamos a selecionar e entrar em contato com vários artistas conhecidos nossos, aí materializou-se a ideia. O objetivo hoje é, além de fazer a mostra cultural, transformá-la em uma exposição permanente. Então todos os anos nós vamos ter a exposição das artes, não somente nesse ano comemorativo.

Como nós conhecíamos os artistas da cerâmica Raku, lá do festival Nipo Brasileiro, nós fizemos o convite e eles aceitaram fazer essa mostra com uma cerâmica de alto valor agregado, que traz muita cultura. É uma técnica tradicional em que o artista expressa o sentimento do momento, da atualidade ou do meio que vive através da cerâmica. Essa cerâmica então queima no forno e tem a surpresa depois no resultado da coloração, porque nunca se sabe qual a cor final. Tem esse valor abstrato da surpresa.

 

E tem um aspecto funcional para quem produz a peça.

Cria uma terapia. A pessoa pode trabalhar em qualquer emprego e no final do dia preparar a sua cerâmica. Também a questão econômica. Existe uma cidade no interior de São Paulo que apareceu no mapa por causa da cerâmica Raku. Foi parar lá uma pessoa de origem japonesa, casado com um brasileiro, e lá ela começou a fazer a cerâmica. E agora de seis em seis meses eles fazem a celebração de abertura do forno, que é quando as peças são retiradas. A partir disso, as pessoas que entendem do produto e as joalherias que compram para revender esperam ansiosamente a abertura desse forno. Isto é, criou-se uma organização com todos os artistas e adeptos que fazem a cerâmica e queimam tudo de uma vez só. E a abertura é comemorada de forma festiva e o produto final é disputado.

Então surgiu a ideia, na abertura da amostra, de levar esse exemplo para os empresários da região para adotar a ideia. E nós temos um local bastante apropriado para isso, que é o Parque do Japão. Aquele lugar que já está conhecido como um pedaço do Japão, nós podíamos movimentar a sociedade para realizar. Em Maringá tem pelo menos 3 ou 4 grupos que fazem o Raku, aí já tem um embrião. Então todo maringaense que tiver o interesse faria um workshop e experimentaria a técnica. A abertura do forno também poderia se tornar parte do calendário da cidade.

 

Esse calendário robusto que é fundamental para movimentar o Turismo da cidade?

Hoje nós temos vários eventos que já montam esse calendário. Quando a pessoa vem passear para Maringá, ela tem que saber que existe esse roteiro cultural. Lá no Parque do Japão então teria uma exposição permanente de cerâmica Raku, por exemplo. Imagina esse curso aberto para a comunidade? A pessoa pode fazer como lazer esse adorno floral que dura uma semana. Até a possibildiade de criar uma carreira de trabalho. Pessoas de baixa renda por exemplo, abrir uma vez por mês para essas pessoas. De repente descobre-se um talento e vira uma profissão de alto valor agregado.

A próxima mostra, depois de encerrar essa, vai ser “O singular do barro”. É uma técnica que também usa o barro, mas com outra cultura. Mesclando com a cultura japonesa, indígena e brasileira. Começa dia 22 de novembro. São peças muito bonitas, cores fortes e vivas.

 

Porque essas técnicas têm em comum o surgimento para a criação de utensílios e depois foram criando peças artísticas.

Até você pode ver na exposição que ainda temos os utensílios. São pratos de sashimi, jogos de chá… eu até estava conversando com os artistas de criarmos alguns produtos que simbolizem Maringá. Se o turista vem aqui e quer levar alguma lembrança, não tem nada padronizado. Isso é uma preocupação, deveriamos criar um padrão nesses materiais em que a Catedral fosse feita de uma forma melhor, obedecendo a escala e uma estética. A pessoa leva essa réplica e lembra da cidade para sempre. Temos que cuidar disso porque Maringá já está criando ares de amadurecimento, está se criando uma divulgação e nós queremos atrair o maior número possível de pessoas e que essas pessoas se sintam bem recebidas, levem lembranças, experiências, e isso está muito ligado à proposta do Instituto Cultural Ingá.

 

Falta, então, perceber esse papel de atração que a Cultura pode ter, mesmo nos pequenos detalhes?

Veja bem, quando você viaja para o mundo, você conhece cidades que têm muita história pra contar, 500 ou 600 anos. Comparado a isso, Maringá é muito nova, tem sessenta e poucos anos só. Mas sempre tem um início, então que seja agora.

Vamos considerar Maringá já crescida, com uma sociedade civil bem organizada e alinhada com o Poder Executivo e Legislativo. Então está na hora de descobrir essa vocação, vamos construir essa vocação para Maringá. Já temos experiências positivas como o Femucic, a Paixão de Cristo. O Natal de Maringá também caminha para essa direção. Tem que pegar essa tradição e fazer ao exemplo de Gramado. Uma cidade pequena, fria, que descobriu sua vocação. Criou esse ar de Europa e vive disso. Maringá tem a indústria, o comércio, mas também pode ter esse lado da Cultura e da Arte. Cabe agora a comunidade se manifestar nessa oportunidade do master-planejamento.

 

Esse seria o papel da Cultura no Masterplan?

O master-planejamento, como costumo dizer, não é uma coisa nova, é antigo isso. Todas essas grandes cidades do mundo passaram por um momento de fazer o master-planejamento e melhoraram muito.

É aquele momento em que toda a comunidade tem a oportunidade de expor sua visão, seus anseios, o que pensa para a cidade.

Então quando a comunidade toda se manifesta, ajuda o Poder Público a ter um norte. Não precisa fazer experiência nenhuma, tem vários exemplos que podem ser copiados e esse é o momento de Maringá. Se você for pesquisar Nova Iorque 30 anos atrás ninguém queria passear lá, era muito perigoso. Até que fizeram o Masterplan. Rudolph Giuliani era o prefeito e ficou marcado para a história. Houve uma guinada em Nova Iorque e agora todo mundo quer passear lá e se sente bem lá.

 

É olhar a cidade em todas as suas potencialidades e desenvolvê-las de uma forma conjunta?

É isso. É transformar a cidade numa cidade sustentável economicamente, porque daí em consequência disso vem a social e a ambiental. Não adianta ser só o ambiental ou só o social e não viabilizar economicamente. Então Maringá precisa descobrir novos pilares de sustentação econômica, não só depender do agronegócio. E qualquer pilar dura 5, 10, 20 anos para ser criado, então agora é o momento.

Nesse contexto, eu acredito que o Turismo é um pilar importante. Nesse caso, as manifestações culturais e artísticas podem ser esse atrativo. Um festival que se amplie, que tome as praças. E as nossas praças também têm que ser preparadas pra isso.

Então trabalhar um calendário anual voltado a Cultura e a Arte talvez seria uma vocação que Maringá pode adotar.

 

Tudo isso parte de uma re-significação do espaço urbano?

Para tudo isso virar tradição e virar atração, teria que ter um padrão, um cuidado maior. Isso iria agradar. Muitas pessoas que vêm fazer compras aqui, por exemplo, se deliciaria com uma atração ou um lugar para visitar. Então esse é o momento de reunir ideias para o masterplanejamento.

No âmbito do Turismo e da Cultura, o que Maringá pode e o que Maringá quer? Então essa é a provocação que o Masterplan quer fazer. Reunir ideias e discutir essas ideias. Dentro do CODEM levamos a sugestão de que todos que viagem tragam ideias. Ideias que sejam aplicadas a médio e longo prazo. Precisa organizar e cuidar disso. Dessa forma que nós queremos que o Masterplan seja um marco em que a comunidade participou e alcançou o objetivo.

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